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Sábado, Julho 04, 2009

Manuel Pinho 

Assisti ao episódio Manuel Pinho, com alguma falta de tempo para compreender os pormenores de tão sórdido acontecimento, sobre que alguns tecnocratas vieram comentar contrapondo-o à “qualidade técnica” do economista. Fico na dúvida de quem fez a “geração rasca”: se a escola, se certas famílias aparentemente educadas. Não compreendo como é que é possível estabelecer este tipo de contrapontos, e como é que alguém pode achar aceitável que se faça no parlamento o que Manuel Pinho fez.

Mas hoje dei mais atenção aos jornais e apercebi-me de um conjunto de pormenores que são particularmente importantes:

1. Na imediata sequência do gesto insólito, a primeira reacção foi a do costume: está tudo bem e nada de grave aconteceu. Exactamente o mesmo que Sócrates e o governo sempre fizeram enquanto se sentiram bem protegidos atrás da maioria absoluta. Valia tudo.

2. Pouco tempo depois, o ministro já estava muito consternado com o que tinha feito, manifestava arrependimento, justificava-se com os ataques de que fora alvo, e reafirmava que não havia razão para se demitir, porque o importante era continuar a “safar empregos”.

3. Mais tarde, Sócrates vinha dizer que – AFINAL – o ministro pedira a demissão e ele aceitara o pedido.

Esta é a primeira parte de uma história mal contada, em que são evidentes as contradições. A primeira reacção trazia a marca do despudor e da prepotência que se tornara habitual antes das eleições europeias (da canelada dos 26,4%). Depois veio o “arrepiar caminho”, mas ainda sem que a demissão fosse algo de plausível. E, finalmente, a incontornável demissão, cuja causa é por demais evidente: no contexto presente, Sócrates só não se afundaria mais ainda, se surgisse com uma atitude que pudesse ser considerada como exemplar. Quer dizer, só se safava, se ao incidente fosse possível contrapor os elogios à “rápida e decidida reacção do Primeiro Ministro”. Foi apenas uma manobra de recurso no pós 26,4%.

Mas há mais factos que têm vindo a ser mistificados, no sentido de minimizar a atitude de Manuel Pinho e, sobretudo, de passar uma parte do ónus do incidente para uma eventual provocação da oposição.

1. Assim sendo, nas primeiras reacções do ministro e do governo transparecia a revolta por estarem a ser acusados de mentir sobre uma promessa de emprego nas minas de Aljustrel.

2. Indignado, Pinho referia que perdera noites a tratar desse assunto, e agora a oposição vinha dizer que nas minas tudo estava na mesma.

3. Cheguei a pensar que, de facto, algo acontecera em Aljustrel e, se não estavam criados os novos 200 postos de trabalho, estariamos lá perto.

4. Sabe-se hoje, que, de facto, em Aljustrel continua tudo na mesma e quem estava a mentir era Manuel Pinho e José Sócrates.

Ou seja, a revolta do ministro não era por estar a ser injustiçado com as acusações da oposição, mas por ter sido descoberto em mais uma manobra demagógica. E – pior do que isso – os postos de trabalho nas minas de Aljustrel não estão criados, porque o governo se atrasou a apreciar um projecto apresentado pela nova empresa, conforme se lê no Público. Não há dúvida que tudo isto é um espanto.
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