Este blog apoia a Associação Portuguesa de Deficientes

Domingo, Setembro 20, 2009

Caso digno de realce 

Eventualmente, um assessor do Presidente da República, provavelmente do PSD, como é natural, chamou um jornalista do Público e preparou com ele uma pequena cabala, baseada na possibilidade do Governo e o Serviço de Informações andarem a escutar as acções de Cavaco Silva e do seu gabinete. Maquiavélico.

Maquiavélico e assustador, porque tudo isto não só me parece verosímil como me cheira a habitual. São actos que fazem parte do “chico espertismo” que – não me canso de dizer – está ligado à pouca seriedade com que se governa e com que se encaram os cargos públicos.

Prepara-se uma jogada destas, com contornos rebuscados que passam pela Madeira para poderem ser desmentidos ou imputados “a coisas lá do Alberto João” (que nunca imaginou que também poderia servir de pateta de serviço), como quem prepara uma manobra para ganhar um lugar na fila de trânsito. Uma coisa que não tem outro objectivo que não seja o “já comi mais um”.

E assim se vive em Belém, em São Bento, no Largo do Rato, Rua de S. Caetano à Lapa, Largo do Caldas, etc..

Por outro lado, os jornalistas envolvidos, deliraram com o ambiente de triller. Prestaram-se a tudo e a mais alguma coisa, porque é destes misteriosos meandros de uma teia de influências que se faz o seu trabalho e se criam as audiências. Não perceberam que iam ficar na berlinda, quando menos esperavam.

Ficaram na berlinda. Agora clamam que o colega do diário x ou y não devia ter publicado segredos que revelam a perversidade infantil que grassa sobre a classe profissional. Clamam contra aquilo que fazem todos os dias aos outros. Quando se trata dos outros é direito à informação, quando se trata deles é direito à privacidade. A nós só nos compete fazer de burros.

O provedor do Público critica o seu próprio jornal de forma bastante dura, mas não deixa de atacar o Diário de Notícias por ter revelado o seu segredo inconfessável e a sua actuação desastrosa. Falta de solidariedade na asneira?... Exactamente. É mais uma “história de putos”.

E no meio disto tudo, o Presidente diz que não é ingénuo e que vai tentar informar-se. Eu acho graça é como é que o Presidente da República de Portugal tem tempo e vontade para a andar a brincar aos polícias e aos ladrões. Ou será aos índios e cowboys?...

São estes os nossos casos dignos de realce que preenchem uma semana de campanha eleitoral para a Assembleia da República
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Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Aliança governamental 

Vem à baila a forma como o PS pode fazer governo se ganhar as eleições, e uma das hipóteses que tem sido colocada é a de que o faça com o Bloco de Esquerda. Não creio que seja possível e assusta-me outra coisa. Se as últimas sondagens forem fiáveis e tiverem a ver com a subida progressiva do PS (o PSD tem trabalhado para isso), começa a aproximar-se uma das situações mais desastrosas para o Portugal dos próximos anos: a de que o PS e o CDS consigam maioria. E digo que seria desastrosa, porque não tenho nenhuma dúvida de que o CDS se assumiria como defensor do socratismo no que ele tem de pior, impondo-lhe contenção no que poderia ter de melhor. É o autoritarismo de Sócrates a actuar sobre a Educação e os professores, sobre a Saúde, sobre tudo o que for social, cedendo no investimento público que resta e a outras medidas menos liberais. A pior mistura que podemos esperar, e que começa a ser possível com os dados da última sondagem. E, com a possibilidade de estar no governo, o CDS fará o que for preciso.
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Sexta-feira, Setembro 11, 2009

A liberdade dos jornalistas 

No Diário de Notícias de hoje vem um curioso artigo de opinião, escrito por Paulo Pinto de Albuquerque, que demonstra bem a forma como a maioria dos jornalistas encara a liberdade de imprensa e de expressão. Começa ele assim:

«A administração da TVI extinguiu o Jornal Nacional de Sexta, com base em alegadas razões económicas, decorrentes de uma reestruturação em curso naquele canal de televisão. Esta decisão teve como consequência directa a demissão em bloco de toda a direcção de informação, da chefia da redacção e dos editores. O plenário dos jornalistas da TVI repudiou a dita decisão, manifestando a solidariedade com os colegas que se demitiram. Estes factos constituem um grave ataque à liberdade de imprensa, aos direitos dos jornalistas e à competência da direcção de informação. »

Depois relata todos os acontecimentos políticos que, de algum modo se relacionam com a decisão de acabar com o jornal nacional de sexta-feira, na TVI, de que era pivot Manuela Moura Guedes. Neste sentido, a análise é correcta, na medida em que não pode deixar-se de estabelecer uma relação entre os ataques de José Sócrates e o fim do jornal. Sobretudo porque é conhecido o jeito do rapazote para fazer a vida negra a quem o irrita.

E termina o artigo assim:

«Tudo somado, estes factos objectivos revelam a clara natureza política da decisão de supressão do Jornal Nacional, que teve o propósito de calar jornalistas incómodos para o primeiro-ministro em vésperas de eleições parlamentares. Não é só a liberdade dos jornalistas da TVI que está em causa. Não é só o respeito pelos poderes legais de uma direcção de informação no tocante à organização da grelha informativa que está em causa. O que está em causa é a liberdade de todos e cada um dos jornalistas portugueses que amanhã queiram falar ou escrever coisas inconvenientes ao Governo.»

Ou seja, os jornalistas, os jornalistas, os jornalistas e, ainda, os jornalistas. Caiu-lhe o discurso num imenso lapsus calami que revela o sentimento da maioria dos profissionais deste ofício: a liberdade de imprensa, não é uma coisa da democracia e do povo, é dos jornalistas. É a liberdade dos jornalistas que está em causa e não a do povo português.

Dirá que uma coisa implica a outra. Não, uma coisa não implica a outra. Uma coisa depende da outra, e não é pela ordem que ele pensa. A liberdade do povo exige liberdade de imprensa, e os limites da liberdade de imprensa são os da liberdade do povo. Colocadas as coisas como ele coloca, o povo terá de sofrer a liberdade dos jornalistas, para ter alguma liberdade de expressão. São coisas distintas que a vaidade e a arrogância de quem está na ribalta tende a confundir.


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Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Jardim de Sócrates 


Assunto para que chamo a atenção, com especial relevo para o livro que nunca foi publicado.

http://aijesus.blogspot.com/2009/09/no-jardim-de-socrates.html

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Gripe "A" na Escola 


Hoje a Sra Ministra da Educação veio dizer que nenhum professor será prejudicado na sua avaliação por estar doente. Não disse – como está nalguns jornais – que essa tolerância se referia à gripe “A”, mas usou – e eu ouvi muito bem – a expressão genérica “estar doente”.


Ora a penalização retroactiva dos professores por terem estado doentes, e apesar de terem comprovado medicamente essa doença, foi a base do conflito entre o Ministério e a classe, no início desta legislatura. Essa doença foi tomada, de forma genérica, como absentismo com base em expedientes fraudulentos.


A Sra Ministra, e os seus respectivos secretários não se coibiram de chamar malandros, madraços, preguiçosos e outras coisas mais aos professores, penalizando-os especialmente pelas faltas dadas por doença. E isso prejudicou muitos deles no acesso ou não acesso à categoria de titular.


Aliás, nem teve em conta algo óbvio, que era o carácter retroactivo de uma norma que incidia sobre um procedimento legal. E considerou como fraudulentos a maioria dos atestados médicos, sem que uma só medida fosse tomada sobre quem os passava.


Esta foi uma das muitas medidas tomadas com o sentimento de impunidade de quem lhe parece estar a actuar sobre os mais fracos, aqueles que não terão força para evitar a arbitrariedade e sem a coragem de agir sobre os que, noutras ocasiões, já tinham provado que eram mais fortes e capazes de reagir contra medidas que lhes desagradassem.


Foi esta a tónica do Ministério que não resolveu nenhum problema da Educação e achincalhou gratuitamente os professores, abalando gratuitamente o seu lugar na estrutura da Escola. Parece-me que agora é tarde demais para vir prometer-lhes papas e bolos.

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Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Estados de espírito 


William Stanley Haseltine

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Caixa de Pandora 

Manuela Ferreira Leite tem, de facto, o objectivo claro de perder as eleições. E os seus esforços são de tal forma, que não parece satisfazer-se com uma derrota tangencial. Precisa de uma humilhação. Imagino que quer reformar-se da política e não sabia como fazê-lo.

De outra forma não se entendem os sucessivos tiros no pé, de que a visita de campanha à Madeira foi apenas um pequeno episódio triste a juntar a tantos outros. Uma pessoa que tem a supina lata de dizer em público que a Madeira é um modelo democrático que pode contrapor-se à asfixia do continente é capaz de dizer tudo. É capaz de dizer, de desdizer, de fazer, de desfazer, de prometer, de faltar ao prometido, de ser como sempre foi, de surpreender em cada momento, enfim, é capaz disto e de muito mais. É uma verdadeira caixa de Pandora onde nem a esperança se salva.

Depois do 25 de Abril, não me lembro de ter visto o país num momento tão trágico, tão entregue à mediocridade, tão sem soluções de nenhuma ordem. E temo que alguém tenha deixado cair isto tão baixo, com o intuito cínico de o vir salvar depois, mas não consigo adivinhar quem.
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Domingo, Agosto 30, 2009

Gripe "A" nas escolas (II) 

No passado, quando o Ministério da Educação preparava o novo Estatuto da carreira docente e definia a regras para seleccionar os chamados “professores titulares”, penalizou retroactivamente todos os que, nos últimos sete anos, tinham dado faltas por doença.

Considerou que as faltas dadas por doença eram a expressão de um certo absentismo da classe profissional. O discurso era “os professores faltam muito”, “os professores, por tudo e por nada, apresentam um atestado médico e faltam”.

Não se disse que, quando um professor está doente e não pode ir à escola, só pode justificar a sua falta com o respectivo atestado médico. E se, em muitos casos, esse atestado era algo fácil de obter e justificava uma falta que, em boa verdade, não era por doença, em muitos outros comprovava uma doença efectiva.

Assumindo que os professores eram, de um modo geral, malandros, faltosos, preguiçosos, golpistas, etc., o Ministério não perdeu tempo com escolhas e tomou todas as faltas por doença como fraudulentas ou perto disso. Doentes e não doentes foram penalizados da mesma forma.

Provocou, naturalmente, uma reacção que diria positiva: os professores deixaram de faltar à escola, mesmo quando estão doentes. Arrastam-se, enchem-se de antipiréticos, mal conseguem abrir a boca, espirram a toda a hora, mas vão à escola.

O Ministério, satisfeito, dirá que reduziu o absentismo, passando uma esponja sobre como o fez e nas consequências dessa atitude. E tudo iria bem até à chegada da gripe “A”.

A pergunta que quis fazer no post anterior era mesmo essa: o que farão agora os professores que acordam com sintomas de gripe? Ficam em casa, como recomendam as regras para reduzir os efeitos da disseminação pandémica? Ou vão para a escola, com medo das consequências futuras na sua carreira?

Mas acrescento outra questão: os pais dos alunos e a CONFAP, em particular, que tanto apoiaram a “guerra contra o absentismo” movida pelo Ministério, sentem-se bem em saber que uma boa parte dos professores, mesmo que se sinta com gripe, irá apresentar-se na escola e colocar-se à frente dos seus filhos, tentando dar aula?

E não digam que isto não vai acontecer porque vai acontecer. Quem tenha convivido um bocadinho com professores, nos últimos anos, sabe que isto é inevitável. A falta de senso a tratar de assuntos tão importantes, como o ensino e o Estatuto da carreira docente, tem este tipo de consequências.
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Sábado, Agosto 29, 2009

Gripe "A" nas escolas 

Espera-se a pandemia de gripe. Um dos sítios particularmente sensíveis, onde a difusão da doença pode difundir-se com grande velocidade, é a escola. O Ministério previu isolamentos nas escolas. Não imagino como.
Como é que funcionam esses isolamentos? Quem toma conta dos miúdos isolados?... E dou de barato o facto de que no momento da detecção da gripe – quando surgem os sintomas – já decorreu um período largo de convívio, em que o contágio esteve em roda livre.

As autoridades hesitam em dizer às pessoas que, ao mais pequeno sintoma, devem abster-se de sair de casa, porque isso vai ter consequências económicas tremendas. Parece um convite ao absentismo, mas a pressão sobre as pessoas pode ter resultados ainda piores.

E, mais uma vez, um dos locais onde essa pressão vai ser desastrosa é a escola. Lembremo-nos que as faltas dos professores prejudicam a sua avaliação. Foi decisivo na contabilidade da escolha dos chamados “titulares”. “Era o que faltava que não fossem”, como disse a ministra. E agora?... Vão ficar em casa?

Quem não conhece o ambiente que se gerou nas escolas nos últimos meses poderá pensar que não haverá nenhum problema, mas está enganado. Os professores vão para a escola doentes, arrastando-se se for possível, porque faltar por doença lhes tira pontos.

Não acreditam em nada que lhes digam agora, porque foram surpreendidos, de um momento para o outro, e penalizados por fazerem algo que estava previsto na lei. Aliás pagaram todos, sem nenhuma contemplação, por terem estado doentes ou por terem simulado essa doença, segundo um princípio governamental de que eram todos madraços e faltosos.

Será um começo de ano lectivo sobre brasas. E brasas bem quentes se a pandemia crescer, como parece ser inevitável.
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Domingo, Agosto 23, 2009

Ainda a Educação 

Marcos Perestrello, membro do Secretariado Nacional do PS, caracteriza a atitude do Ministério da Educação deste governo como hostil aos professores, com falta de flexibilidade na aplicação das reformas e com uma obstinação que pode prejudicar o PS nas próximas eleições. Acrescenta ainda que faltou à equipa governativa a coragem necessária para recuar em certas medidas, dando como exemplo a divisão da carreira em duas categorias. Tudo isto é verdade, embora já tenha pouca relevância política, porque surge demasiado tarde.

A questão dos estatutos da carreira docente foi, de facto, o problema mais quente da relação entre o Ministério e os docentes sem que o Governo entendesse os níveis de incompatibilidade entre a sua medida e a classe profissional. Na minha opinião, a questão da divisão da carreira em categorias não seria, em si, um foco de tensão, não fossem as tremendas injustiças cometidas no concurso.

E eram injustiças decorrentes de um deficiente e tosco método de escolha, com medidas absurdas que geravam uma arbitrariedade revoltante. É impossível que o Ministério não o tivesse visto na altura, tal eram os casos concretos apresentados e tornados públicos.

Aconteceu, contudo, que a equipa de Maria de Lurdes Rodrigues não quis saber de injustiças e confiou que a divisão formal dos professores iria provocar uma guerra interna que acabaria por dividir a classe e permitir ao Ministério impor a reforma. Quis-se armar em Maquiavel sem conhecer o ofício, foi grosseira nas agressões e acabou isolada, a dizer disparates atrás de disparates e provocando um dos maiores fiascos deste Governo.

Neste jogo de “chicos espertos”, que foi comum na equipa de Sócrates e que marca o seu próprio estilo governativo, há ainda que salientar a cobardia com que trataram agressivamente certos grupos profissionais, que lhes pareceram ser mais fracos, e fugiram como cordeirinhos de outros, tidos como mais fortes.

E relembro – como exemplo – que também era intenção do governo escalonar a carreira médica. Uma intenção que se revelou “inoportuna” a certa altura, pois claro. Aliás, relembro ainda que no discurso de tomada de posse de Sócrates as palavras mais agressivas foram para os farmaceuticos, ameaçando um conjunto de medidas que acabaram na demissão do Ministro da Saúde e - como se costuma dizer - em "meter a viola no saco".

O que Perestrello vem fazer agora é chorar sobre o leite derramado. Os professores estão feridos e as consequências eleitorais serão inevitáveis. Mas pior do que as consequências eleitorais são os estragos provocados no sistema educativo.
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Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Incompetência legistica 

O Diário de Notícias de hoje trás uma notícia sobre o Regulamento de Disciplina Militar que, pelos vistos, entra hoje em vigor. Confesso que apenas dei uma vista de olhos por tal lei, parecendo-me que assumiu um carácter demasiado complexo para algo que devia ter a simplicidade inerente a um regulamento, a aplicar por pessoas que não têm de ter formação jurídica.

Fica-me, contudo, a impressão que já tive com a publicação de outras leis, de que foi algo feito por leigos que não conhecem o que estão a legislar e cometem erros de palmatória, próprios disso mesmo: próprios de quem não percebe nada do assunto que quer regulamentar.

Lembra-me esta saga legislativa cega e imprópria, marcada sobretudo pela incompetência de legista, uma História, que não sei bem onde se passou e que ouvi há muito tempo. Certo arquitecto que concebeu um campus universitário, elaborou um projecto dos edifícios escolares, dos laboratórios, das residências, das áreas desportivas e de lazer, dos jardins e de tudo o mais que compreende um campus universitário moderno. No dia da inauguração, com grande pompa e circunstância, alguém atento reparou que não estavam programados os caminhos no meios dos extensos relvados e chamou-lhe a atenção: o senhor esqueceu-se dos caminhos!?... Ele respondeu: os caminhos farei para o ano que vem, no sítio exacto onde o movimento diário das pessoas os acabar por determinar.

Lúcido este arquitecto. Lúcido e observador dos carreiros que vemos pelo meio dos relvados, desenhados pelo pé dos muitos transeuntes que, naturalmente, escolhem a via mais natural, e fazem os caminhos caminhando. Mas tem esta história uma outra particularidade importante: a de mostrar que não adianta legislar contra as pessoas. Aliás, as leis são para facilitar a vida das pessoas, ajudá-las e protege-las, não são para uns quantos boys se divertirem a brincar às marionetas. Os caminhos fazem-se onde as pessoas precisam de passar e as leis serão concebidas de acordo com a sociedade e os seus valores.

Recentemente, tive ocasião de ler com atenção uma outra lei que foi urdida e alinhada por leigos que nada percebem do assunto de que legislavam. E, neste caso, com a gravidade inerente ao facto de se tratar da chamada “lei das armas”, publicada em 2006 e corrigida em 2009 mas ficando com alguns dos erros que já lá estavam em 2006. Nuns casos mais graves do que outros mas, sobretudo, com a tal ignorância dos boys acabados de sair da Universidade, alinhados nas jotas partidárias e cheios de si próprios, mas muito ignorantes sobre a vida e, muitas vezes, sobre o que estão a legislar.

Dou um exemplo:

Na tal "lei das armas", referindo-se às vulgares caçadeiras utilizadas também para várias modalidades de tiro desportivo – em que Portugal já obteve várias medalhas olímpicas – referem armas com um calibre que classificam de 12 mm. São as comuns caçadeiras, de que existem, essencialmente, três calibres: 12, 16 e 20. Se os tais juristas soubessem do que falam teriam reparado que 12 é mais grosso que 16 e 16 é mais grosso que 20, não podendo tratar-se de medidas em milímetros, portanto. Se, pelo menos, tivessem visto uma arma das que referem, saberiam que o diâmetro do cano não pode ser apenas de 12 mm.

Se fizessem uma pequena ideia do assunto sobre que fizeram uma lei, que foi aprovada na Assembleia da República e promulgada pelo Presidente da República, saberiam o que sabe qualquer caçador: o chamado “calibre 12” é uma medida inglesa de diâmetro de cano que quer dizer o seguinte: concebida uma esfera de chumbo com o diâmetro desse cano, são precisas 12 esferas dessas para fazer o peso de uma libra.

Coisa estranha esta?... Não, não é estranha. Tem a ver com a quantidade de projécteis esféricos, que era possível fundir com uma libra de chumbo, para uma determinada espingarda. No tempo das armas carregadas pela boca isso era importante.

Nem toda a gente sabe isto, mas todos os que viram estas armas e sabem de que é que se trata – o que seria suposto acontecer a quem faz leis sobre elas – têm a noção de que não são 12 mm.

Tem pouca importância?...

É o que dirão esses boys vindos das jotas, cheios de si próprios e que estão metidos em gabinetes nos ministérios, ganhando bem e produzindo os textos de leis sem nenhum cuidado com o que fazem.

Eu acho que isto tem muita importância. Não pelo diâmetro dos canos das espingardas de caça, mas por tudo o que representa a ignorância deste facto – que foi legislado em 2006 e voltado a legislar em 2009. Fizeram-se leis orgânicas sobre organismos sem saber como é que funcionavam e para que serviam, fizeram leis das armas sem saber de que é que se tratava e o que estava em causa, fizeram-se leis sobre avaliações, sobre Regulamentos de Disciplina Militar, sobre educação, sobre saúde, sobre tudo. E sempre com a mesma leviandade e ignorância dos 12 mm de calibre.

Nalguns casos os erros foram tão grosseiros que as leis voltaram para trás, não passaram no Tribunal Constitucional, caíram em contradição, foram inaplicáveis, mas noutros (muitos) continuam aí a exibir a ignorância e, sobretudo, a incompetência. Esta foi uma característica persistente deste governo.
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Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Outra vez os combustíveis 

O problema do aumento do preço dos combustíveis dentro de uma lógica que ultrapassa toda a decência na forma como os consumidores são tratados é um exemplo tremendo da passividade popular ou do cansaço psicológico em que nos encontramos.

As gasolineiras – e especialmente a Galp – são capazes de subir os combustíveis a seu belo prazer, de manipularem os aumentos e descidas do preço do crude para maximizarem os seus lucros, de inventar justificações mirabolantes para que os combustíveis se mantenham em alta quando o crude desce, e ainda de vir – piamente – queixar-se de que a baixa do preço do petróleo reduziu os seus lucros.

Este processo é infame e tem um princípio óbvio na liberalização dos preços, quando não havia condições de mercado para garantir uma concorrência séria.

No tempo do governo de António Guterrez, levantou-se uma campanha persistente contra o tabelamento dos combustíveis, com o argumento de que a liberalização iria reduzir os preços. Dizia-se que era mais natural que as oscilações se fizessem em função do mercado, o que aparentemente era lógico, mas ninguém teve honestidade de chamar a atenção que não havia mercado.

Durão Barroso liberalizou os preços e o resultado imediato foi a sua subida. O principal argumento dos liberalizadores caia por terra, mas eles não desarmaram: de imediato “esclareceram” que isso era um fenómeno provisório, e que uma vez normalizado o próprio mercado, eles desceriam. Será que toda a gente se esqueceu desta conversa fiada?

Já ninguém se lembra disto e, muito menos, se lembram que os políticos que promoveram a liberalização eram quem melhor sabia que não havia condições de concorrência. Aliás, nem estavam interessados em criar essas condições, e jogaram sempre para manter o quase monopólio da Galp na refinação.

Hoje a administração da Galp nem sequer se dá ao trabalho de estudar justificações públicas plausíveis e coerentes para a sua escandalosa usura. Expressam-se com uma falta de respeito que insulta a nossa inteligência, seguros como estão de que nada porá travões ao maná que lhes foi criado por Durão Barroso e mantido pelos que lhe seguiram.

Impressionante ainda é a passividade do público e, sobretudo, o silêncio dos media sobre os verdadeiros meandros do negócio da refinaria. Não há um só jornal, televisão ou rádio que apresente um trabalho sério sobre este assunto.
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Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Responsabilidades e culpas 

No Diário de Notícias de hoje, Maria José Nogueira Pinto escreve um artigo sobre “responsabilidade e culpa”, tomando como exemplo o comportamento dos responsáveis do Hospital de Santa Maria, em face dos casos de cegueira provocados por razão que ainda se desconhece.

Tem razão no que diz sobre a diferença entre responsabilidade e culpa. A culpa implica uma acção directa que está na causa de um acontecimento, a responsabilidade é inerente e (neste caso) institucional. A culpa do que aconteceu no Hospital de Santa Maria foi de alguém que trocou ou negligenciou a administração de um produto, mas a responsabilidade é do Hospital.

Nada mais verdadeiro. Pena é que a compreensão deste facto tenha surgido a Maria José Nogueira Pinto, em Agosto de 2009, em plena silly season, e várias décadas depois de ter iniciado a sua carreira política. Quantas oportunidades para dizer o disse agora terá Maria José desperdiçado, enquanto integrou o governo, foi vereadora da Câmara de Lisboa, provedora da Misericórdia de Lisboa, etc.?

O princípio é bom e Sócrates, particularmente, devia ouvir esta lição todos os dias de manhã, porque foi um chá que não tomou quando era devido. Este governo foi especialista em levar a argumentação até à mentira mais grosseira quando se tratava de sacudir a água do capote sem nenhuma vergonha.

Mas começa a ser cansativo ouvir lições de moral ao jeito de Frei Tomás: “faz como ele diz, não faças como ele faz”.
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Quarta-feira, Agosto 05, 2009

As listas de Manuela Ferreira Leite 

Há dias atrás, Manuela Ferreira Leite foi confrontada com uma pergunta sobre as candidaturas de pessoas sobre que recaem acusações graves – nomeadamente de crimes cometidos no exercício de funções políticas e aproveitando-se das mesmas – com processos em tribunal. Respondeu insistentemente que isso era um assunto importante, mas que não tinha cabimento discuti-lo em período eleitoral.

Não tem cabimento em período eleitoral porquê? – Pergunto eu.

Manuela Ferreira Leite não explicou as razões de não ter cabimento discutir estes assuntos em período eleitoral, mas a recente elaboração das listas do PSD dá-nos algumas pistas sobre a forma como formulou a sua opinião. Pura e simplesmente, Manuela Ferreira Leite queria incluir nas suas listas algumas pessoas sobre quem recaem acusações graves de crime, decorrendo processos em tribunal.

O caso mais flagrante – escandaloso, na minha opinião – é o de António Preto, acusado de fraude fiscal qualificada e falsificação de documento. O actual deputado tem vivido refugiado na Assembleia da República, vai abdicar da sua imunidade em 24 de Setembro, mas como, provavelmente, será eleito para a próxima legislatura, voltará a ficar protegido.

E é assim porque Manuela Ferreira Leite assim o quis.
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Domingo, Agosto 02, 2009

A máquina de propaganda do PS 

  1. Francisco Louçã vem a público dizer que José Sócrates tentou aliciar Joana Amaral Dias para apoiar o PS, prometendo-lhe um lugar de deputada e um cargo político.
  2. Sócrates protesta que é mentira. Ou melhor, afirma que é mais uma mentira do Bloco de Esquerda, numa campanha contra o PS.
  3. Joana Amaral Dias está de férias no estrangeiro e nada responde a este assunto.
  4. Um jornal esclarece que o convite foi feito por Paulo Campos, secretário de Estado das Obras Públicas.
  5. As reacções a esta revelação dividem-se:
  1. Chega, entretanto, Joana Amaral Dias que diz que não é nada amiga de Paulo Campos – mal se conhecem – e que este a connvidou para ocupar um lugar elegível na lista do PS.
  2. Paulo Campos reconhece (por fim) que lhe propôs a possibilidade de ocupar um lugar elegível numa lista do PS, mas nega que isso tenha sido um convite [sublime!].
  3. Sócrates continua a exigir desculpas de Francisco Louçã [sublime!].
  4. Daqui por uns dias Paulo Campos sairá de cena.
  5. Sócrates dirá que ficou provado que não foi feito nenhum convite a Joana Amaral Dias, e que tudo foi uma maquinação de Francisco Louçã.
  6. Já ninguém se lembrará do que aconteceu exactamente.

Nota: É verdadeiramente incrível a capacidade de manipular o valor e o sentido das palavras.


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